Imagine tentar fazer matemática sem o zero. Parece impossível, né? Mas por milênios, civilizações inteiras fizeram exatamente isso. O zero não existia. E a história de como ele surgiu é uma das mais interessantes da matemática.
Os babilônios, por volta de 300 a.C., tinham um símbolo que funcionava como placeholder — um espaço vazio para indicar que uma posição em um número não tinha valor. Mas não era um número em si. Era mais como uma pontuação.
Os maias, de forma independente, desenvolveram seu próprio conceito de zero. Usavam uma concha estilizada para representá-lo nos calendários. Mas também não desenvolveram um zero aritmético completo — não calculavam com ele.
A revolução veio da Índia. Em 628 d.C., o matemático indiano Brahmagupta escreveu as primeiras regras formais para operar com o zero como número: zero mais zero é zero, qualquer número mais zero é ele mesmo. Ele também tentou lidar com a divisão por zero — e chegou a resultados que a matemática moderna considera errados, mas o esforço em si foi extraordinário para a época.
Esse zero indiano viajou para o mundo árabe, onde matemáticos como Al-Khwarizmi (de cujo nome deriva a palavra “algoritmo”) o refinaram e o integraram ao sistema de numeração que usamos até hoje. Depois chegou à Europa através de comerciantes e tradutores medievais — e encontrou resistência.
A Igreja Católica medieval tinha reservas sobre o zero. O vazio, o nada, era filosoficamente problemático numa visão de mundo onde Deus preencheria tudo. Cidades italianas como Florença chegaram a proibir o uso dos numerais indo-arábicos (que incluíam o zero) nas transações comerciais, no início do século XIII. Os mercadores os usavam às escondidas.
Hoje o zero está em absolutamente tudo: na base dos computadores (que operam em binário, sequências de zeros e uns), na álgebra, na física. Sem o zero, não haveria notação científica, não haveria cálculo como Newton e Leibniz desenvolveram.
É curioso que o número que representa o nada seja tão fundamental para quase tudo.