Se você acha que teve um dia ruim, apresento Tsutomu Yamaguchi. Em agosto de 1945, ele estava a menos de 3 quilômetros do epicentro da bomba de Hiroshima. Sobreviveu. Voltou para casa em Nagasaki. E dois dias depois, caiu a segunda bomba. Ele sobreviveu de novo.
Yamaguchi é o único sobrevivente oficialmente reconhecido pelo governo japonês como vítima das duas explosões atômicas. Mas sua história vai muito além da sorte extraordinária.
O primeiro dia: Hiroshima, 6 de agosto de 1945
Yamaguchi tinha 29 anos e trabalhava como engenheiro naval para a Mitsubishi em Hiroshima, longe de sua cidade natal, Nagasaki. Na manhã de 6 de agosto, enquanto caminhava para o estaleiro, viu um avião americano no céu. Segundos depois, um clarão branco tomou tudo.
A explosão o jogou no chão, queimou seus braços e rosto e o deixou temporariamente surdo e cego. Ele se arrastou até um abrigo antiaéreo, passou a noite lá e no dia seguinte tomou um trem — ferido, com os curativos improvisados — de volta para Nagasaki, onde estava sua família.
O segundo dia: Nagasaki, 9 de agosto de 1945
De volta ao trabalho ainda se recuperando, Yamaguchi estava numa reunião quando o chefe questionava seu relato sobre a bomba de Hiroshima. Ele tentava explicar que uma única bomba havia destruído a cidade inteira quando, às 11h02, a janela da sala se iluminou com aquele mesmo clarão que ele conhecia muito bem.
A segunda bomba caiu. E novamente, Tsutomu Yamaguchi sobreviveu.
Uma vida longa e uma missão
Apesar de todas as sequelas — ele sofreu com problemas de saúde relacionados à radiação por décadas — Yamaguchi viveu até os 93 anos, morrendo em 2010 de câncer no estômago. Nos últimos anos de vida, se tornou um ativista pelo desarmamento nuclear, visitando a ONU e contando sua história para quem quisesse ouvir.
Ele dizia que ter sobrevivido duas vezes era, ao mesmo tempo, um presente e uma responsabilidade. Uma obrigação de falar, de lembrar, de garantir que aquilo nunca se repetisse. Difícil discordar.
